quinta-feira, 9 de abril de 2020

ILHA DOS TONTOS


ILHA DOS TONTOS


Epígrafe

À sua pretensa leitura, recomendo consideração,
Ao deparar-se distraído com uma serpente na seara
Não a espante, peço, porque ela é devida à condição
É parte íntegra do caminho e do destino que meara.

Sim dedico a ti, leitor, a infância de brincar com cobras,
E não destiles, rogo, de tua língua mais que aguardentes,
Pois nestas plagas, sentinelas vigiam as nossas obras
E os benditos e os malditos, rangem os dentes.

Tens em ti - e sobre ti - a livre, doce e rude pena
Por tal não me tomes por demente ou imoral,
Sejas tu vítima como Ofélia ou cúmplice de Helena,
Sob teu julgo surgirão veredas ou mergulho abissal.

Prezado, se te achares nestas linhas inclementes,
Peço a ti menos do que sustos, delírios ou regatos.
Não ofereço mais que inquietudes ou dúvidas silentes
Tampouco espero chuvas lavarem meus regalos.

Eu por mim avalio, nuanço, afianço e crio.
Nesta quimérica ilhoa bucólica e oceânica,
Cubro-me de alforje, batina, perigo e arrepio
Oferecendo-te, tão somente, minha fé platônica.

I – REFERÊNCIAS

Não há uma cruz no pico da mais alta colina
Há um sino em bronze que badala nas noites lúgubres,
Em doces alvoradas, nas tardes lânguidas e dias calmos.
E verga-se a corda quando o mundo a tempestade domina.

Cravada à porta do oriente, nos juncos da beira mar,
Fica prostrada uma tabuleta com letras gravadas,
Em ouro e a carvão, duas irrevogáveis recomendações:
É sugerida a nudez absoluta e irrestrito o verbo amar!

E nada mais há que norteie ao tonto que o arrebol,
As infindáveis estrelas, os vendavais e estações,
As revoadas, óperas, luares, cataclismas e enxurradas
A perspicácia das ervas, plantas e a lucidez do sol.

Por questões de segurança, a geografia austral
Tanto os dados geométricos e astronômicos
São espalhados por todo lugar - anti segredos naturais,
Latitude, a porção boreal e o grau longitudinal.

 Os portos são abertos, sem limítrofes ou aduaneiras
Tantos naufragados nas areias, relíquias e insensatos:
Reis, odisseus, plebeus,  piratas, loucos e pescadores,
Sujeitos de outros esferas, bastiões, partidos e bandeiras.

II – ATMOSFERAS

Vergam-se os hibiscos em galhos pelas estradas,
Nas cavernas os bichos copulam puros e reais.
Espontâneas as heras se enroscam às entradas
Adornando as sebes e paliçadas dos quintais.

Quando os amantes se deitam nas pradarias,
Doam-se ao firmamento sem culpa nem rancores,
Reluzem estrelas fiéis cúmplices da nostalgia
Oferecendo às paixões, amores e desamores.

Ao sol doa-se a palavra, o corpo e a poesia,
A lavra enverga os braços, o chão e os sentidos
Equilibrando a balança entre o cheio e a melancolia
Transbordando ao coração o fel e seus tecidos.

À chuva doa-se em sementes, verdes e matrizes,
Apagando a soberba, a aflição da dor e da beleza,
Ajustando tons de preto, branco e outras matizes
Transbordando ao coração a cor e a pureza.

Ali, tudo se faz rente, perempto, premente,
Não há altura divergente ou peso qualificante.
Subtrai-se do gigante, dá-se ao pobre indigente.
Um pequenino peixe refestela-se da onça relevante.

III – OS SÁBIOS (adendo)

Os ilhéus divulgam as letras e o analfabetismo
Em complemento um do outro não do antagonismo

Quando nas assembleias um iletrado tonto discorre
O tonto letrado humildemente ouve e não concorre

Tão saboroso o prato dado pelo saber do irmão
Que todo tonto é sábio desde a sua concepção.

IV – O FORA

Ao contemplar alhures o exterior mundo,
O ímpeto curioso enlevado pela sede profética,
Desperta na alma um pesar profundo
À insana loucura e a miséria da ética.

Nos palácios os poderes. Senadores e congressos.
Engomados em seus ternos homens tolos, falastrões
Exacerbam imorais o dom retórico e os excessos,
Enquanto inocentes almas mendigam nos portões.

V – O DENTRO

Porções de líquidos circundam a terra fértil,
Mutável, volátil, pulsante em suas vivas artérias.
Trilhões de vidas, átomos, células e matérias,
Todavia o todo corrompe a vil ciência erétil.

O organismo central e seus circuitos ativos,
Acumulando história e prescrevendo sumário
E seus dados engavetados, lacrados no armário
Nos ocos, nas tumbas, nos baús cativos.

Difere da ordem da natureza criada e festiva,
Apraz ser criador e confundir-se em criatura,
Dissuadir os instintos a despeito da agrura
E arbitrar sobre invenções que outrem apura.

Quem és, e o que queres tonto cidadão?
Soubesse a resposta não existia tão a sós,
Responde o dentro com a deformada voz.
Quão triste e canora a tua vasta solidão!

VI – O BANQUETE

Os convivas foram chegando aos borbotões,
Eram tantos que não couberam na caverna.
Vinham de distantes ilhas e vastos continentes,
Nobres, plebeus, sacerdotes, ateus e crentes.

A enseada curva em sua calma marola
Encheu-se de naus, velas e barcaças,
Eram galés, saveiros, canoas e uma jangada,
Que a calmaria costumeira foi maculada

Aos forasteiros foram servidas iguarias,
Da caça ao peixe aos frutos doces sazonais.
Havia verdes de horta simples e suculentas
E caranguejos, bivalves, grãos e polentas.

Porém ao prenúncio do orador sacristão,
Foi regulado o assunto na pauta da reunião,
Discutiu-se salvaguardar o mundo maltratado,
Ou desistir da saga humana e do tema lembrado.

Entre uns, quase todos assinalaram o tratado,
Cuidar do mundo, difundindo a paz e a cortesia.
Não fosse o sinédrio um sonho, seria tão heresia
Pois comprometeram-se todos com a pura poesia!
  
VII – O TEMPLÁRIO

No hemisfério sul da ilha, onde o frio inspira,
Há árvores às quais os livros são cachos em frutos,
Miríade de signos, borboletas, melodias e metafísica.
Há leitores abstratos, tanto quanto todo léxico.

Ilustríssimos mestres, entre digníssimos solitários
Recitam em verso e prosa as aventuras da memória:
Homero, Platão, Cícero, Fausto, Sêneca e Salomão,
Safo e Sherazade, Baudelaire, Jorge de Lima e Rimbault.

Kazafis, Tagore, Yets, Allan Poe, Neruda, Pessoa e Camões,
Manuéis de Barros e Bandeira. Lispector e comadre Cecília.
Gonçalves Dias. O menino Quintana e a menina Coralina,
Lorca. A Graça de Idalina. Lêdo Ivo, Tico, Vinícius e Rabelaire.

José Beèsse. Drummond. Catulo e Patativa do Assaré...
Além de outros tantos rotos, nobres, loucos, tontos.

VIII – EPÍLOGO

És mesmo ilha? Idílica, isolada, introspectiva, silenciosa?
Ah! És tão adeuses, passarocos, sargaços, duna rochosa.
Metamorfoses de seixos, restos plasmas de marés oceânicas,
Banzos, humores, delírios, esperanças e químicas antagônicas.

Adeus aos tolos, adeus naus dos desesperados, dos insensatos,
Levem consigo as joias todas, os relicários, os metais, os artefatos,
As águas salobras, as vestimentas, orgulho, as dores e tuas chagas...
Ao emergir do naufrágio, terás sempre guarida nestas doces plagas!
















A HISTÓRIA DO BOI DE CONCHAS


quarta-feira, 8 de abril de 2020

UBATUBA


Contornar as montanhas ao redor
Ostras e outras no mar
Jogar água num lugar
e ter mar, ar
Pintar de azul o teto
Soprar um sopro sereno
E sentir ar...

UBATUBA

O mar desenhando ondas mestiças
Num verão úmido
Num inverno seco
Num chão intrínseco
Que dá mandioca, cará e inhame
E um povo preguiçoso
Que sabe pescar!

(1991)

AGOSTO

AGOSTO

Ó mar
Faz-me ser
um homem em paz,
Que faz amar,
Que com sentido
Tirou uma estrela do céu.
E me destina
Ó estrela, rainha vespertina
Numa terra, num mar
Donde nasci.

Ó minha gente
O que me encalha aqui
É o mar raso
E quanto profundo
Caiçaro, vagabundo.
Canto uns versos,
Ensino cantar.
Ó dom de voar
Onde é que canto?...

Ó Ubatuba!
Tu és minha
E a gente que em ti se aninha
Sei não, se te merecem,
Mas como a luz nem todos prezam,
Como a Deus nem todos rezam.
Este se vão
E tu continuas minha.

(1987)

MAIO


MAIO

São as noites que me refrescam a mente
Se é inverno, o sono saboroso
O som da maré é o ressonar contínuo de um acalanto
O céu aveludado com bordados faiscantes são mira do meu olhar
As ruas de pedras, de terra, não mais das ferraduras, das rodas duras
Ainda dos pés
As aldravas dos sobradões e as tramelas das casas
não rangem por eu entrar
E as folias que eram risos, fé e namoros furtivos
Não serão e nem farão...
Mas há alegria, ainda que com os dias destemperados
O céu conserva o mesmo jeito,
A noite, o mar e maio também
Deus, esperança será que tem?

(1986)


ÍNDIO QUER NASCER

Tatear o chão com os pés
Nus
Brilho de lua minguante

Guariterés, guaxis
Guaraniys, tupis
Guajurus
Cabisbaixo guecha
Condor ou urubus

Mim quer ocara
Não segue guaruçá
Guaxinim, saracura
Abil, pedra dura

Rio corre ubá
Amborê, tiê, bemtevi
Cara pintada
Pitanga, penas do colibri

Rabo de lagarto,
Nem casa nem "asfarto".

(1983)

REALEJO

Que saudade tocou-me
A cidade só, sob um manto dourado estendido pela lua cheia
Tudo longe...
Mariposas festejavam a solidão diante das luzes da alameda
- as luzes da ribalta -
Domando o silêncio, um realejo
gentilmente girando a manivela, ressoando na viração sonetos e solidão
Que saudade tocou-me
Ao ver o homem de bigode e chapéu coco, a meus olhos memorar Carlitos
Na noite reluzia o som ardente e tocante do realejo no seu
palco de paralelepípedos
Sua platéia, as borboletas da noite, a brisa orvalhada, o sereno, a relva molhada
e eu...
As estrelas piscavam vaidosas, as árvores dançavam ao vento, a lua sorria jovial
- a minha escola, a minha rua, o meu primeiro madrigal -
E o pensamento pairava sob a melodia do seresteiro
Que saudade tocou-me
A cidade só, o homem ébrio, trôpego, se retirando
em silêncio do picadeiro de concreto,
sob os aplausos dos grilos
Os assovios dos ventos e
lágrimas minhas.

(1985)
ENCANTO AO LITORAL

Alvorecer
Doce inerência do dia
Coram-se as encostas
O sol tilinta nas curvas infinitas do mar
Ondas refletem a excêntrica
Luminosidade constelar.

É preciso o pouso da gaivota na laje submersa.

Oh, vento manso que dança
ao acalanto de uma noite finda
Qual remanso acaricia a belezura
Da menina esguia da flor de meus olhos luz.

Enveredam os remos na estrada profunda.

Se canoas navegam
Naufragam tristezas
Surgem homens de sabedoria mística
Caiçaram-se.

Sereias
Singram baleias, estórias.

E o astro levanta-se majestoso
Apunhalando com a espada luzente
O corpo lenda do mar lustral.

Alvor
Sonolenta a vida desperta
Nos olhos do menino praieiro
Nos bocejos do pirata velho
No velejar das folhas secas
No despertar de gente boa, humilde
No café forte e um dedo de prosa.

E vão se apagando as velas
E vão içando as velas...

(1991)

PEIXE

Minha alma profunda
Inunda-se nas vagas
Leva-se pelas correntezas
E com certa clareza
Acha-se em profundezas.

Como o pescador mar afora
Buscando o peixe.

E a bolha que sobe estoura
A poesia naufraga
O peixe farta
Os homens se encontram.

(1989)


MARIA

Na quietude de meus passos, em raia da campina
Calco a sola nos pastos e colho uma flor
Sereno o voejar das aves,
O velejar das folhas
Cobre-nos um cenário azul
Ao redor, vasto verde - retrato de parede -
Conchego do riacho, correnteza delicada
No galho, colméia, lagarta e sabiá
Devaneios de menina
A colina me cantiga, domina, apazigua...

Ladrilho pau brasil, palhoça de sapê
Esgueira-se o dia, lamparina alumia
Paz, a noite faz, Maria
Com seus babados...

Remota cidade bota um (branco) ovo

Este chão me alimenta, não me enterra
(E rogo por merecer!)
Aura de liberdade, dia novo
Em paz!

(1990)


SERTÃO

Preservei todos os anseios de minha comunidade,
Vejo serra, rés, plantio e humildade.

Apeei minhas mágoas em água corrente,
Conduzi meu desengano à galope ao poente.

Senti-me livre, em privilégio respirei fundo,
Tornei-me defensor perpétuo do sertão mundo.

Calcei-me de esporas, com furor pus-me a rodeio,
Bambeei em suas rédeas e em queda fui ligeiro.

Abri as porteiras, passei cantando, na paz pensando,
Traguei o paieiro, sonhei-me matreiro, o chão a pata mastigando.

Sentei-me em barranco a observar as pastagens,
Acendi meu fogo a iluminar outrora, nativos e imagens.

Fazem-me calar, por certo, as ruas e praças,
Há coisas que muito assustam, mas o sertão engraça.
Meu nome é José, o dela é Maria,
Sereno no sertão vive a calma, Agnus Dei e Ave-Maria.

(Catuçaba - 1983)