quarta-feira, 8 de abril de 2020

REALEJO

Que saudade tocou-me
A cidade só, sob um manto dourado estendido pela lua cheia
Tudo longe...
Mariposas festejavam a solidão diante das luzes da alameda
- as luzes da ribalta -
Domando o silêncio, um realejo
gentilmente girando a manivela, ressoando na viração sonetos e solidão
Que saudade tocou-me
Ao ver o homem de bigode e chapéu coco, a meus olhos memorar Carlitos
Na noite reluzia o som ardente e tocante do realejo no seu
palco de paralelepípedos
Sua platéia, as borboletas da noite, a brisa orvalhada, o sereno, a relva molhada
e eu...
As estrelas piscavam vaidosas, as árvores dançavam ao vento, a lua sorria jovial
- a minha escola, a minha rua, o meu primeiro madrigal -
E o pensamento pairava sob a melodia do seresteiro
Que saudade tocou-me
A cidade só, o homem ébrio, trôpego, se retirando
em silêncio do picadeiro de concreto,
sob os aplausos dos grilos
Os assovios dos ventos e
lágrimas minhas.

(1985)

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